como tudo começou

Depois de 30 anos no Brasil e a pensar em regressar definitivamente a Portugal o meu pai resolveu comprar uma Quinta. Estávamos na década de 60 e eu devia ter 5 ou 6 anos. Lembro-me das primeiras visitas à Quinta. Apesar de estar a 500m de uma estrada nacional, o caminho mais curto para aqui chegar obrigava o carro a atravessar um rio e era literalmente atravessar, descer e voltar a subir. Claro que quando chovia tínhamos que “ir à volta”. Por vezes para encurtar o tempo, travessias mal calculadas tinham como consequência atolamentos que obrigavam a vir um trator puxar o carro outra vez para a estrada.


A pêra passou a ser a rainha desta Quinta
Estávamos nos anos 70, numa época em que alastrava a ideia, que se converteu em projeto global, de que a agricultura deve ser vista como uma indústria. E o campo uma fábrica.
E aí construiu-se a ponte para passarem os carros o que foi uma excelente ideia, não fosse terem-se esquecido de que era água o que passava por baixo.


A Quinta do Arneiro transformou-se numa Quinta modelo . Não havia muitas Quintas com 30 ha  de pomares de pera, primorosamente bem cuidados. Os inícios de tudo, são sempre tempos de experiencias e de experimentação. As monoculturas obrigam a uma muito maior atenção e foco na produtividade, nada pode falhar porque não há escapatória.

Os anos 80 e 90 foram anos de excelentes proveitos.
E heis que estamos na viragem de um século e muitas vezes não percebemos mas andamos todos como a pescadinha de rabo na boca.
Tenho a certeza hoje, que se o meu pai soubesse o que ia acontecer ao rio , não que a Quinta tivesse tido alguma culpa direta na poluição do mesmo, o que ia acontecer à saúde da natureza, o que ia acontecer a esta agricultura intensiva, o desperdício que iria gerar,  teria sido ele a iniciar este projeto. 




Início de um novo ciclo
Entretanto a Quinta tinha deixado  de ser também para mim já há muito tempo, desde 1987, um local onde passava ferias para ser a casa da família. Todos os meus filhos nasceram e cresceram aqui.

Em 2007 depois de uma daquelas voltas que a vida dá, deixei uma livraria que tinha há 14 anos para me vir dedicar a 100% à agricultura. Os meus dois primeiros anos aqui foram como estar no paraíso, e não estou a exagerar. Tive o privilégio de poder estar dois anos sem pensar muito, passei dias a trabalhar no campo e posso garantir mas garantir mesmo, que trabalhar no campo trouxe-me paz, alegria e energias indescritíveis. Lembro-me com saudade desses momentos e eu não sou de ter saudades. 

Mas quem me conhece sabe que me é impossível deixar de sonhar, de projetar e idealizar e felizmente tem acontecido conseguir  concretizar os meus sonhos. Já há muito tempo que pensava que se fosse  eu a gerir a quinta “ as coisas “ teriam que mudar. Primeiro era essencial ir convertendo a Quinta aos poucos e poucos, transformando-a numa Quinta em modo de produção biológico.

O respeito pela natureza quando dependemos em exclusivo da sua generosidade é um dado óbvio. É impossível termos alguém como parceiro por muito tempo, se não o tratarmos com respeito. E que parceria pode ser mais intensa do que a do  agricultor com a natureza?

Segundo, era ponto assente que tínhamos que chegar aos consumidores dos nossos produtos sem intermediários. Nesta atividade o agricultor é, cada vez mais, o elo mais fraco porque a distância entre quem consome e quem produz é dia a dia maior. De onde vem esta alface, como foi produzida, como é que chegou a mim? São perguntas que ninguém faz. O nosso principal objetivo: que os nossos clientes passem a saber de onde veio aquela alface e se possível quanto tempo demorou a crescer, qual a época da maçã, das couves ou do tomate.



É muito motivador constatarmos hoje, alguns anos passados, que todos os nossos clientes da primeira hora ainda estão connosco, e que todos os dias chegam mais e que ajuda nos têm dado !! É também muito reconfortante percebermos que estamos a construir um projeto com bons alicerces. Preferimos escolher um caminho menos fácil mas que garantidamente será mais duradouro.
Não podemos nem queremos deixar acabar esta história sem agradecer a todos os que fazem parte dela, os nossos clientes, os nossos colaboradores, os nossos fornecedores.. É por ter tantos personagens que esta é uma história tão rica de que não se vislumbra final.

Voltemos ao rio de que falei no início. Basta passar em cima da ponte que agora lá está para percebermos tudo. O que a nossa evolução esqueceu, do que nunca mais nos lembrámos foi de parar para pensar. As consequências do desrespeito pela natureza são absurdamente visíveis.
E esta será uma história ainda mais feliz quando podermos dar a notícia de que aquele rio é outra vez um rio. E se esse for o nosso sonho nada nos vai impedir de que tal aconteça.